27 agosto 2012

o meu amigo poeta (X)


O meu amigo poeta pensava muitas vezes no seu próprio funeral. Não é que tivesse grande pressa ou grande medo de morrer, mas pensava muito no assunto, pensava muito mais naquilo do que uma pessoa normal.

“É uma daquelas coisas que só se fazem uma vez”, explicava ele. “Mais vale aproveitar para fazer qualquer coisa decente.”

Queria que tudo se passasse ao ar livre. Queria que as pessoas bebessem e a bebida ficasse por sua conta. E queria também que se arranjassem umas colunas, de mil e tal watts no mínimo, ligadas ao seu velho gira-discos, para animar a coisa.

Tencionava o meu amigo poeta que o caixão entrasse ao som de ballad of a thin man, de Bob Dylan, seguindo-se na lista as músicas one scotch, one whiskey, one bourbon e sympathy for the devil, momentos que os convidados deveriam assinalar com um grandioso emborcar colectivo de uma tequilla de penálti. Neste ponto, chegar-se-ia lume ao caixão, ao som de the immigrant song dos Led Zeppelin.

Tinha pensado a coisa segundo os mesmos princípios que orientavam a sua escrita: entrar devagar e com algum incómodo, passar a meio por algo selvagem e terminar a todo o gás: “no fim, tem de ser sempre a abrir dali para fora!”

Assim que o meu amigo poeta acabou de me dar conta dos planos para a sua despedida deste mundo, pensei por momentos no que tinha acabado de ouvir.

“Então é só música americana? Não queres nada português?”

“Não. Quero um funeral à cowboy.”

“Então e os restos? Onde é que queres que a gente os meta?”

“Sei lá. Isso importa para alguma coisa? Na altura estou morto.”

Achei que aquilo não fazia muito sentido, mas não disse nada. Conhecendo-me a mim e conhecendo-o a ele, sabia que discutir o assunto não adiantava grande coisa.

A conversa ficou por ali.

23 agosto 2012

o meu amigo poeta (IX)


Naquela tarde, encontrei o meu amigo poeta a ler no café. O que não tem nada de especial, visto que o café era um dos seus locais de leitura predilectos. Já a forma como estava a ler era mais particular: sempre que chegava o momento de voltar uma página, o meu amigo poeta erguia o indicador à altura da boca, dava uma delicada lambidela na ponta do dedo, e só depois virava a folha. Nunca o tinha visto fazer aquilo. No entanto, a naturalidade do seu gesto sugeria que a sua natureza era já a de um automatismo. Qualquer pessoa que não o conhecesse e o visse a fazer aquilo, pensaria certamente que se tratava de um hábito antiquíssimo. Como se o meu amigo poeta nunca antes houvesse voltado uma página sem aquele movimento prévio.

Como não queria incomodar o meu douto companheiro, e crendo que lá haveria de ter os seus motivos para se comportar daquela maneira, não lhe fiz questão alguma acerca daquilo. Limitei-me a sentar-me, pedi o meu café e pus-me a ler o jornal, como era habitual. Volta e meia, contudo, a curiosidade levava-me a lançar um ocasional olhar de soslaio ao meu amigo poeta. Lá estava ele. Levava o dedo à boca, dava-lhe a lambidela, voltava a página. Aquilo intrigava-me, mas decidi ainda assim não perguntar nada ao meu amigo poeta. Sabia que era bem possível que me respondesse com maus modos e, sinceramente, não me apetecia estar ali a envolver-me em pequenos feudos com ele.

Pouco depois, chegou o Mendonça e sentou-se também. Era pintor. Trazia sempre o seu caderno de esboços debaixo do braço, uma expressão aluada no rosto e a farta cabeleira encaracolada nas mais improváveis disposições. Nunca se penteava. Cumprimentou-nos, pediu café e bagaço, e, enquanto os bebia, trocámos algumas impressões sobre a situação política da altura. Fizemo-lo discretamente, como fazem as pessoas com bons modos, apesar de nenhum de nós ser caracterizado por ter bons modos. Depois, o Mendonça embrenhou-se nos seus esboços e tanto eu como o meu amigo poeta retornámos às respectivas leituras.

Passou-se uma boa meia hora, pois lembro-me de ter passado também eu da leitura do jornal para outras leituras. Provavelmente, uma qualquer peça de teatro, formato que me entusiasmava particularmente na altura, e pelo qual cheguei a andar obcecado. Estava a meio de um diálogo qualquer, quando o Mendonça soltou uma gargalhada que me distraiu da tarefa. De facto, foi um riso tão violento que chegou a assustar-me, levando-me a dar um pequeno salto na cadeira.

“A lamber o dedo?”, perguntou ele, a rir-se que nem um perdido.

“Que é que tem?”

Decidi intrometer-me na discussão:

“Realmente”, comecei eu, “o que é que te deu agora para começar a lamber o dedinho antes de virar a página?”

O meu amigo poeta remeteu-se por instantes ao silêncio. Calculo que deva ter-se sentido embaraçado.

“Opá, acho que dá um certo estilo”, acabou por admitir.

E explicou-nos que tinha visto um gajo qualquer a fazer aquilo noutro café. Tinha achado que o tipo tinha muita pinta e decidiu adoptar o mesmo estilo para as suas leituras. Andou mesmo a treinar durante alguns dias, como um actor, e agora, que se sentia verdadeiramente capacitado para incorporar o gesto, decidira passar da pesquisa à prática.

Eu e o Mendonça ficámos parvos com o que acabáramos de ouvir. Nunca na vida teríamos imaginado o meu amigo poeta a perder tempo com uma preocupação tão frívola.

“E então? Dá ou não dá?”, perguntou ele.

“Dá? Dá o quê?”

O meu amigo poeta ensaiou um sorriso charmoso, que acabou por não lhe sair bem. Respondeu:

“Uma certa pinta. Dá ou não dá?”

Houve um silêncio da nossa parte. Um silêncio que falava por si. Eu e o Mendonça encolhemos os ombros. Ele voltou aos desenhos e eu à leitura. O meu amigo poeta acabou por encolher também os ombros, alguns segundos depois. Regressou à leitura.

Nunca mais o vi a lamber o dedo antes de virar uma página.

20 agosto 2012

o meu amigo poeta (VIII)


A casa do meu amigo poeta também tinha as suas particularidades.

Era muito pequena, com divisões minúsculas. Na sala, o tecido do sofá apresentava uma boa meia dúzia de buracos bem grandes, deixando à vista o estofo. Livros, revistas e pilhas de papéis acumulavam-se nas estantes que cobriam quase todas as paredes, por vezes em fileiras duplas, deixando pouco espaço a quem quisesse caminhar por entre eles. Os electrodomésticos estavam todos a precisar da reforma e havia ali muito mais pó do que em qualquer outra casa que eu tinha visto até hoje. Por vezes, havia latas de cerveja ao redor do gira-discos e vinis espalhados pelo chão sem cuidado algum. Na cozinha, a loiça suja acumulava-se. O fogão estava já negro devido aos molhos que ali foram solidificando, queimando e requeimando com o passar do tempo. O forno tinha pedaços de comida encrostados em tudo o que era canto. O chão era de madeira, mas tinha-se a impressão de caminhar sobre cabelos e pó, tal era a sua profusão ali.

Era uma casa escura, com poucas janelas, e as persianas estavam sempre corridas.

 Surpreendentemente, a varanda era enorme e arejada. Corria sempre ali uma brisa fresca e suave. E a vista, apesar de não incidir em nada particularmente belo, não deixava de ser agradável.

Pode dizer-se, talvez, que a casa do meu amigo poeta o reflectia na perfeição.

o meu amigo poeta (VII)


O meu amigo poeta ganhou sempre a vida com trabalhos de merda. Daqueles ofícios para gente pouco ambiciosa, ou pelo menos assim considerados pelo comum dos mortais.

Houve uma altura, porém, em que conseguiu juntar dinheiro, aos poucos e com muita dedicação. Um dia, decidiu fazer um investimento. Comprou uma dezena e meia de caixotes com volumes de tabaco. Ninguém percebeu aquilo. Nunca vi o meu amigo poeta com um cigarro na boca e presumo que com os outros se passe o mesmo.

Pouco depois, encontrei-o à porta de um tasco. Andava a entregar maços de tabaco aos comensais do sítio, na sua maioria pobres diabos que por ali passavam para esquecer as agruras da sua vida modesta. Em troca, recebia umas quantas moedas, por vezes após alguma discussão. Perguntei-lhe o que andava a fazer. Respondeu-me ele, com o pragmatismo habitual e um encolher de ombros esclarecedor: 

“Contrabando, claro.” 

Andava a vender os volumes de tabaco que comprou há anos.

Depois, explicou-me a operação com mais detalhe. Disse que a revenda do tabaco, por aí, lhe garantia um lucro de duzentos e qualquer coisa por cento sobre o preço de compra original. 

E disse-me também que a poesia verdadeira estava mesmo aí: num mundo como aquele em que vivemos, não se paga a ninguém para escrever poemas. As pessoas pagavam é a quem roubava melhor que os outros. 

“A poesia verdadeira está em subverter esse roubo, direccionando-o para o cumprimento de um fim mais digno”, concluiu ele.

Fiquei a matutar naquilo por alguns momentos. O silêncio deve ter incomodado o meu amigo poeta. Ou então, interpretou-me mal. Pôs-se a andar dali. A meio caminho, contudo, estacou. Voltou-se para trás.

“Qualquer dia, já juntei o suficiente para começar a fumar!”, gritou.

E desapareceu, às gargalhadas, na esquina mais próxima.

16 agosto 2012

o meu amigo poeta (VI)


O meu amigo poeta falou-me apenas uma vez, de uma forma genérica, sobre o modo como via a poesia.

“Não é do pensamento que um poeta vive. É do que está por baixo. Não é aquilo que uma voz interior nos martela por dentro da cabeça, mas o conjunto dos lugares de onde ela vem”, disse ele. Parou, limpou os óculos, voltou a colocá-los no rosto. Distraiu-se a brincar com uma migalha de pão que encontrou no tampo da mesa. Depois, enquanto a esfregava entre o indicador e o polegar, continuou:

“Posso dizer-te que todos os meus poemas se reportam a situações que eu mesmo vivi. E posso dizer-te também que ninguém, nem mesmo aquelas pessoas que estiveram lá, a viver aquilo comigo, consegue adivinhar a que situação ou situações se refere cada poema. Mas, de uma forma ou de outra, elas não deixam de perceber e de viver os meus poemas. Porque o que se passou comigo faz parte do que eu vivi, mas o que está por baixo, escondido, à espera de ser colhido, faz parte de todos nós.”

Por momentos, fiquei mesmo interessado naquilo que acabara de ouvir. Achei a reflexão verdadeiramente estimulante. “Às vezes, este gajo até diz umas coisas engraçadas”, pensei eu na altura.

Mas, mal olhei novamente para o meu amigo poeta, apanhei-o a mirar o decote da gaja da mesa ao lado com todo o descaramento. Tinha a boca aberta e os olhos completamente arregalados e olhava para as duas protuberâncias com uma expressão de incredulidade quase infantil. Só lhe faltava babar-se.

Não quero, de modo nenhum, pôr em causa a qualidade do busto da referida senhora. Eram, de facto, duas mamas magníficas. Só quero dizer que, no fim de contas, talvez aquela treta toda de que o meu amigo poeta falara não merecesse tanto interesse quanto isso.

o meu amigo poeta (V)


A forma como o meu amigo poeta lidava com a escrita foi mudando com o passar do tempo. O que começou por ser um processo irregular e verdadeiramente compulsivo, acabou por transformar-se gradualmente num hábito sabiamente domado, num processo que conseguia gerir sem que a coisa perdesse a sua naturalidade.

No princípio é que foi mesmo o diabo. Acontecia com igual frequência o meu amigo poeta ficar sem escrever durante semanas a fio e ser assaltado por surtos que o forçavam a passar dias inteiros fechado em casa a escrever.

Dois ou três anos depois de o ter conhecido, viu-se o meu amigo poeta de um desses violentos ataques da musa. Passaram-se semanas em que ninguém lhe pôs os olhos em cima, porque estava enfiado em casa a escrever os seus míticos Passeios em liberdade, a sua ode à independência de espírito, do corpo e dos comportamentos, um elogio das liberdades da carne e do espírito, conforme me confidenciou depois, obra cuja génese derivava directamente do facto de vivermos à época sob o jugo da ditadura. Foram mais de quarenta poemas, bastante longos, escritos de rajada, num estado de intensa fúria e permanente obsessão.

O meu amigo poeta lembra-se bem do dia em que finalmente terminou o livro. A razão é simples: quando acabou de escrever, o mundo tinha mudado: era o dia 27 de Abril de 1974.

Quando lhe falámos da revolução, quando lhe contámos tudo o que acontecera nos dias anteriores, ficou num estado indescritível. Parecia estar prestes a explodir e a implodir ao mesmo tempo. Tremia que nem varas verdes, saiu do café para dar pontapés num caixote do lixo e tudo. Além de ter perdido o acontecimento pelo qual todos ansiávamos, o meu amigo poeta via agora os seus mais ricos poemas reduzidos a uma condição de quase inutilidade, em virtude da radical mudança do contexto a que se referiam.

Enfiou-se outra vez em casa. Todos rejubilavam com as conquistas de Abril, menos o meu amigo poeta. Sentia-se posto de lado, humilhado pela má fortuna, ostracizado pelo mundo que o rodeava. Queimou os poemas todos e, apesar da tentação por vezes se fazer sentir, nunca mais escreveu o elogio de coisa nenhuma.

13 agosto 2012

o meu amigo poeta (IV)


Mais ou menos a partir dos trinta e cinco anos, o meu amigo poeta tornou-se reconhecido em certos círculos. 

Havia quem gostasse mesmo do que ele escrevia, mas os seus leitores encaixavam-se maioritariamente numa outra categoria. Eram pessoas suficientemente cultas para saberem fingir que compreendiam o seu trabalho, mas faziam-no por todos os motivos errados. Acabou por formar-se a dada altura uma espécie de culto ao redor dos escritos do meu amigo poeta. Mas, na sua maioria, quem gostava do que ele escrevia acabava por gostar mais da exclusividade de ser um dos poucos a conhecer a sua obra do que a obra em si.

Nunca deixou de escrever poemas. Em certos círculos, dizia-se que ficava melhor à medida que passava o tempo. “Como o vinho do porto”, dizem os entendidos da coisa, “mas com um travo mais amargo, mais sujo, e, ainda assim, terno, simples e profundamente humano”.

O meu amigo poeta, por seu turno, estava-se mais ou menos a marimbar para o assunto. Não precisava de aprovação para continuar a fazer o que gostava de fazer e, como nunca contou com o que escrevia para ganhar a vida, aproveitou muitas vezes para se divertir com situação. Tão pouco caiu no erro de alguma vez ter considerado a palavra como sagrada.

Não havia, de facto, nada sagrado para o meu amigo poeta. Bem pelo contrário. Era um dos mais empenhados fanáticos do anti-sagrado. Estava-se a cagar para a crítica e, em última análise, para os seus leitores. Tão pouco frequentava a missa ou comícios partidários. Sabia que, a partir do momento em que começasse a pensar demasiado nesse tipo de coisas, perderia a liberdade e a independência de espírito que eram para ele fundamentais.

“Sagrado?”, perguntava ele por vezes, entre goles de bagaço, ou a meio de uma sandes de pernil. “Prefiro as coisas sagradinhas. Coisas palpáveis. Como uma refeição em cima da mesa ou um orifício morno e húmido onde enfiar aquela parte do corpo que os homens têm e as mulheres não.”

Mas a verdade é que todos os dias se sentava à frente de uma folha de papel. Não era preciso que escrever fosse sagrado para que o meu amigo poeta encarasse a actividade com uma devoção de monge.

o meu amigo poeta (III)


Desde essa tarde, desde esse primeiro dia do ano, não foi preciso muito tempo para perceber que eu e o poeta nos tornaríamos amigos.

Apesar de sermos muito diferentes, entendíamo-nos.

Essa afinidade tornou-se evidente desde a tarde passada em casa do Bertinho. Começámos a ver-nos com uma frequência cada vez maior e, à medida que a relação se estreitava, tornava-se visível que cada um de nós equilibrava o outro. O meu amigo poeta com a sua natureza excessiva, excêntrica, impulsiva, e eu, homem tranquilo, ponderado, estável. Ele com a sua coragem desesperada, eu com a minha tranquilidade dificilmente perturbável. As palavras que usávamos não eram as mesmas, o que nos entusiasmava não era o mesmo, os nossos prazeres, ódios e medos eram muito distintos, mas, ainda assim, compreendíamo-nos de tal forma que o primeiro instinto que cada um de nós despertava no outro era o de se ser tolerante. Havia uma facilidade na nossa convivência que compensava todas essas diferenças. E cada um de nós aceitava a natureza do outro vendo-as como uma dádiva e não um obstáculo.

Foi, por isso, com naturalidade, que se tornou hábito entre nós trocarmos confidências que não partilhávamos com outras pessoas. Nunca nos faltava assunto de conversa. Confiávamos um no outro como não confiávamos em mais ninguém. Tínhamos, por vezes, discussões violentas, mas nunca houve um diferendo que não pudéssemos ultrapassar. Além de tudo isto, posso ainda dizer convictamente que, da mesma forma que a minha vida não teria sido tão rica sem a companhia do meu amigo poeta, a vida dele teria sido bem mais dura sem a minha companhia.

Simplificando, pode-se dizer apenas que em muito pouco tempo já éramos grandes amigos. Essa amizade era absoluta e incondicional. E duraria décadas.

09 agosto 2012

o meu amigo poeta (II)

II

Não deve haver muitas maneiras de começar pior um ano novo.

Acordar num sofá desconhecido, num salão desconhecido. Ter o corpo pastoso, entorpecido e a sensação de se ser mais velho do que realmente se é. Ser um objecto pesado, perro, agredido pela luz solar, envolvido num despertar convulsivo e confuso. Mal ergui o tronco, a cabeça começou a latejar. Uma dor aguda, localizada, invasiva. Como se o meu crânio estivesse demasiado cheio. Sentia-me sujo, pegajoso. Parecia que alguma coisa tinha secado sobre a minha pele durante o sono, formando uma espécie de película.

E sede, deus do céu. Tinha tanta sede.

Quando olhei à minha volta, os meus olhos demoraram a focar. Houve um instante em que as formas que me envolviam pareciam não ter contornos, estavam esbatidas no ar, diluídas na claridade agressiva que se alastrava pelo espaço. Depois olhei para baixo, vi as minhas pernas sobre o sofá, à esquerda o limite do sofá e, à direita, um monte de casacos empilhados de onde se ergueram dois braços. Sim, como num filme de vampiros ou zombies, dois braços surgindo esticados num acordar violento. Depois uma cabeça, um tronco. Um rosto dominado por uma expressão perdida. Não o reconheci imediatamente.

As peças do puzzle que era a noite anterior começaram a juntar-se enquanto nos olhávamos, incrédulos, dois estranhos que acordam no mesmo sofá sem saber como. Era ele, o poeta. O mesmo da noite anterior.

Fechou os olhos e levou as mãos à cabeça. Gemeu. Grunhiu. O rosto contorceu-se numa expressão de mal-estar absoluto.

“Foda-se, Jesus, minha nossa senhora”, disse ele, “como é que eu vim aqui parar, caralho?”

Olhou para baixo, apalpando o corpo para ver se estava inteiro. Começou à procura de qualquer coisa dentro do casaco. Parecia desesperado. Com gestos frenéticos, revolvia violentamente os bolsos do casaco, das calças, da camisa. Apesar de ter procurado pelo menos três vezes em cada bolso, o exercício completo não deve ter durado mais que quarenta segundos.

Lá desistiu. Abanou a cabeça para os lados, desanimado. Só depois olhou para mim.

“Lembro-me de si”, disse ele, com o indicador esticado na minha direcção. “Você viu o meu caderno?”

“Não, não vi”, disse eu.

“Lembra-se do que aconteceu?”, perguntou ele. “Não me lembro de nada. Quer dizer, de quase nada… É que o seu rosto é-me familiar.”

“Não, não me lembro”, respondi.

“Merda. Mais um.”

“Mais um?”

“Mais um poema. Se fosse juntar todos os que já perdi assim, tinha material para quatro livros ou mais.”

Parou de falar por instantes. Depois teve um pequeno espasmo. Uma expressão de incómodo instalou-se-lhe no rosto.

“Sabe onde é a casa de banho?”

“Sim, é já ali à…”

Ia a meio da frase quando ele vomitou no meio do chão.

“Merda”, disse ele enquanto recuperava o fôlego, “tenho de arranjar uma mulher rapidamente.”

Depois começou a respirar outra vez com mais força. Vomitou novamente.

Eu via aquilo tudo a sair da boca dele, escancarada, e começava a sentir-me mal disposto. Senti também um espasmo. Foi a minha vez. Saiu tudo numa só rajada. Um vómito prolongado, poderoso. O estômago a revolver-se como se o seu interior estivesse a tentar escapar cá para fora. Era avermelhado, granulado, com relevos inesperados de aspecto esponjoso, e estava ali à minha frente, no chão. O do poeta era amarelo e tinham espuma nalgumas partes.

Olhámos um para o outro. Mantivemo-nos sérios por um ou dois segundos, mas depois largámos a rir às gargalhadas. Ele parou de rir, por momentos, e vomitou outra vez. Estava a limpar a cara quando se virou para mim, a sorrir, e disse, como se estivesse num filme:

“Pressinto o início de uma bela amizade.”

Acabámos por passar lá o dia. Eu, o poeta, o Bertinho, mais dois gajos e duas gajas que pareciam ter dormido juntos. Não os quatro ao mesmo tempo, mas sim dois em cada cama. Embora o contrário também não fosse de estranhar naquelas ocasiões. O Bertinho providenciou um lanche ajantarado e mais copos. Ainda não era noite e já estávamos bêbedos outra vez.

Eu e o poeta tornámo-nos imediatamente amigos. Não é que tivéssemos assim tanto em comum. Era mais como se partilhássemos uma linguagem comum. Uma espécie de código, uma certa maneira de olhar para as coisas, de ver o mundo. Ainda hoje não consigo explicar muito bem porque é que se gerou entre nós uma afinidade tão grande.

O facto é que fiz um amigo. Um bom amigo, como o tempo se encarregou de demonstrar em variadas ocasiões.

Bem vistas as coisas, não era uma maneira assim tão má de começar o ano.